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Cidades

Revitalizar o Centro exige mais do que apontar culpados

Revitalizar o Centro exige mais do que apontar culpados

Artigo opinativo
Por Natália Clementin

Um vídeo gravado durante um trajeto de carro pelo Centro de São José do Rio Preto ganhou repercussão nas redes sociais. Nele, pessoas que estavam nas ruas são chamadas de traficantes, passantes são alvo de xingamentos e travestis são mencionadas de maneira depreciativa. Em determinado momento, surge uma frase que merece atenção: “Vamos trazer botecos pra cá. Tá seguro.”

Talvez seja justamente nessa frase que esteja uma parte importante da solução.

Bares, restaurantes, cafés, mercados, empresas, moradias, cultura e eventos podem contribuir para devolver movimento a uma região central. O erro está em imaginar que a revitalização começa pela retirada das pessoas consideradas indesejáveis.

O problema do Centro é muito maior.

Rio Preto cresceu

São José do Rio Preto chegou a uma população estimada de 504.166 habitantes em 2025, segundo o IBGE.

Uma cidade desse porte concentra desafios urbanos mais complexos. Desigualdade, dependência química, população em situação de rua, imóveis ociosos, criminalidade e perda de movimento em determinados horários fazem parte dessa realidade.

Nenhum desses problemas deve ser minimizado. Tampouco podem ser tratados como se tivessem uma única origem ou um único culpado.

Segurança pública exige dados

A criminalidade existe e precisa ser combatida.

Em Rio Preto, os roubos passaram de 606 ocorrências em 2024 para 499 em 2025, redução de 17,6%, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo divulgados pelo Diário da Região.

O dado não significa que o Centro seja livre de problemas. Significa apenas que segurança pública precisa ser discutida com estatísticas, investigação, prevenção e planejamento.

A aparência de uma pessoa, o horário em que ela circula ou o fato de permanecer em uma calçada não constituem prova de envolvimento com o crime.

Tráfico exige polícia. Dependência química exige saúde. Vulnerabilidade exige assistência.

São responsabilidades diferentes e precisam ser tratadas dessa forma.

Revitalização passa pela ocupação

Rio Preto já discute formalmente a recuperação da região central.

Em audiência pública realizada na Câmara Municipal em maio de 2026, entraram na pauta temas como segurança, turismo, entretenimento, estímulo ao comércio, imóveis vazios, patrimônio histórico, arborização e estacionamento.

É uma discussão semelhante à enfrentada por outros grandes centros brasileiros.

São Paulo criou o Requalifica Centro para estimular a recuperação e a reutilização de imóveis antigos na região central. Recife desenvolveu políticas que associam revitalização urbana, moradia, patrimônio, cultura e ocupação dos espaços públicos.

A experiência dessas cidades mostra que recuperar um Centro não significa apenas reformar calçadas ou aumentar o policiamento. É necessário criar razões para permanecer ali.

Moradia traz circulação contínua. Restaurantes e bares ampliam a atividade noturna. Comércio gera empregos. Cultura atrai público. Serviços fazem pessoas permanecerem na região além do horário comercial.

Portanto, sim, tragam os botecos.

Mas tragam também investimento, habitação, iluminação, fiscalização, assistência social, cultura e segurança.

Quem está na rua não é um diagnóstico

Pessoas em situação de rua não podem ser automaticamente associadas ao tráfico.

Da mesma forma, travestis não podem ser apresentadas como símbolo de decadência urbana.

Identidades e expressões de gênero diversas fazem parte da história humana há séculos. Ser travesti não constitui crime.

Se existe violência, exploração sexual, tráfico de pessoas ou qualquer outro ilícito, o poder público deve investigar e responsabilizar quem pratica essas condutas.

O foco precisa estar no crime, não na identidade de quem ocupa o espaço público.

Responsabilidade não termina no poder público

É comum procurar um responsável único para problemas urbanos.

Cobra-se a Prefeitura, as secretarias, a polícia, quem trafica, quem explora e quem administra.

Essa cobrança é legítima.

Mas uma cidade também depende da conduta cotidiana de seus cidadãos.

Respeitar regras de trânsito, denunciar crimes, preservar espaços públicos, combater preconceitos e cobrar políticas consistentes fazem parte da mesma construção coletiva.

O Centro de Rio Preto precisa de segurança. Precisa enfrentar vulnerabilidade e criminalidade. Precisa recuperar imóveis, atrair investimentos e estimular novos negócios.

Também precisa continuar sendo uma região da cidade onde pessoas diferentes possam circular sem serem tratadas previamente como suspeitas.

Queremos descobrir uma Rio Preto cada vez melhor, mais segura, mais viva e mais responsável.

Para todos.

TOOOOO-DOOOSSSS.

Em tempos

O Código de Trânsito Brasileiro classifica como infração gravíssima segurar ou manusear celular enquanto dirige, conforme o artigo 252.

Avançar o sinal vermelho também é infração gravíssima, conforme o artigo 208.

Dirigir sem atenção ou sem os cuidados indispensáveis à segurança é infração leve, prevista no artigo 169.

Nota editorial: este artigo não atribui responsabilidade jurídica a qualquer pessoa. As referências ao Código de Trânsito Brasileiro apresentam apenas as normas correspondentes às condutas registradas no vídeo.